sexta-feira, 29 de agosto de 2025

A Influência da Teologia Cristã no Conservadorismo e Seus Reflexos na Sociedade e Política Brasileira Contemporânea.

 

A Influência da Teologia Cristã no Conservadorismo e Seus Reflexos na Sociedade e Política Brasileira Contemporânea.

The Influence of Christian Theology on Conservatism and Its Reflections on Contemporary Brazilian Society and Politics.

Nilson Cruz1

RESUMO

   Os fatos políticos que ocorreram no Brasil nos últimos anos acenderam as discussões sobre as origens do conservadorismo no país, suas características, e como este tem influenciado a sociedade através dos seus valores, que foram sistematizados pela primeira vez por Edmund Burke, no século XVIII, em resposta a Revolução Francesa e ao Pensamento Progressista. Embora o Conservadorismo Liberal implantado na sociedade brasileira se originou em Portugal, o mesmo possui características próprias, devido às razões que levaram a sua adoção. Considerado como uma “onda” pela mídia dominante devido aos eventos que desencadearam na última eleição presidencial, se faz necessário conhecer de fato quais são as raízes desse movimento, seus princípios, qual a influência que os mesmos sofreram da teologia cristã e como esta influência manifestou-se nos últimos anos na política brasileira.

Palavras-chave: Conservadorismo. Teologia Cristã. Política Brasileira.

ABSTRACT

   The political events that have taken place in Brazil in recent years have sparked discussions about the origins of conservatism in the country, its characteristics, and how it has influenced society through its values, which were first systematized by Edmund Burke, in the 18th century, in response to the French Revolution and Progressive Thought. Although Liberal Conservatism implanted in Brazilian society originated in Portugal, it has its own characteristics, due to the reasons that led to its adoption. Considered as a “wave” by the mainstream media due to the events that triggered the last presidential election, it is necessary to really know what the roots of this movement are, its principles, what influence they have suffered from Christian theology and how this influence manifested. in recent years in Brazilian politics.


Keywords: Conservatism. Christian Theology. Brazilian politics.

1.      Mestre em Teologia. Engenheiro. Pastor titular da Igreja Batista Semente Santa.

 

INTRODUÇÃO

   Os fatos políticos que ocorreram no Brasil nos últimos anos acenderam as discussões sobre o conservadorismo no país influenciando a agenda política brasileira, desencadeando uma mudança brusca principalmente no quadro político nacional. O objetivo deste artigo é fazer uma análise sobre a influência da teologia cristã na construção do movimento conservador no mundo e em especial no Brasil, e como este conservadorismo, antes silencioso, provocou uma das maiores mudanças na sociedade e na política brasileira dos últimos 30 anos.

AS ORIGENS DO CONSERVADORISMO

   O conservadorismo tem como seus fundamentos: (1) a filosofia e a tradição greco-romana, com destaque aos filósofos Aristóteles e Platão, tendo no direito romano as raízes do direito a propriedade; (2) a filosofia moral judaico-cristã, como ciência que permeia o metafísico, o natural e o civil; (3) e o direito canônico, que traz princípios de “estabilidade e previsibilidade das relações civis”.2 Edmundo Burke foi o filósofo que primeiro sistematizou o conservadorismo, no ano de 1790, como “a autoconsciente força social como oposição às resultantes do Esclarecimento no Terror da Revolução Francesa”3, através da obra intitulada “Reflexões sobre a Revolução na França”. O termo conservador veio a ser cunhado pelos seus seguidores em 1820. O conservadorismo surge como uma resposta às reorganizações da sociedade através de leis de cunho estritamente político, que ameaçavam a preservação de valores religiosos e familiares. Como pode ser visto aqui, o conservadorismo possui como um de seus principais fundamentos a filosofia moral judaico-cristã, que será o objeto de pesquisa deste artigo dentro do movimento conservador.

AS INFLUÊNCIAS DA TEOLOGIA CRISTÃ NO CONSERVADORISMO

   O ser humano é dotado do sentido de autopreservação, e por consequência, de uma natureza conservadora. Sendo assim, mais do que uma ciência que estuda as áreas política e social, o conservadorismo é uma ciência que se debruça no estudo da natureza humana. Nas palavras de Olsen Bocchi “ser conservador é reconhecer o passado para compreender o presente e, com base na ponderação de ambos, projetar o futuro de maneira a respeitar a evolução e preservação da sociedade e as peculiaridades do indivíduo” 4. Para Roger Scruton, a relação de passado, presente e futuro estaria morta sem a moral cristã. Russel Kirk, ao escrever a obra “A Política da Prudência”, estabelece dez princípios do conservadorismo, que são:

“1. A crença numa ordem transcendente, moral e duradoura; 2. O conservador adere ao costume, à convenção e à continuidade; 3. Conservadores acreditam no que pode ser chamado de princípio da prescrição (da consagração pelo uso); 4. Conservadores são guiados por seu princípio de prudência; 5. Conservadores prestam atenção ao princípio da diversidade; 6. Conservadores são refreados por seu princípio de imperfectibilidade; 7. Conservadores estão convencidos de que a propriedade e a liberdade estão intimamente vinculadas; 8. Conservadores defendem comunidades voluntárias, da mesma forma que se opõem a um coletivismo involuntário; 9. O conservador vê a necessidade de limites prudentes sobre o poder e as paixões humanas; 10. O conservador compreende que a permanência e a mudança devem ser reconhecidas e reconciliadas em uma sociedade vigorosa”5.

   Nos princípios acima elencados por Kirk, destacam-se: (1) “a crença numa ordem transcendente, moral e duradoura”, que aponta para uma moral absoluta que só reside em Deus; (2) a imperfectibilidade do ser humano, que traz a consciência dos limites da humanidade, apontando para a perfeição encontrada apenas em Cristo Jesus; (3) “a necessidade de limites prudentes sobre o poder e as paixões humanas”, que reconhece a situação pecaminosa do homem e suas inclinações para o mal. Kirk ainda afirma que “toda a cultura surge da religião. Quando a fé religiosa decai, a cultura também decai”6. Neste mesmo sentido, Roger Scruton entende que “na sua manifestação empírica, o conservadorismo é um fenômeno mais especificamente moderno, uma reação às vastas mudanças desencadeadas pela Reforma e pelo Iluminismo7. Segundo Thiago Moreira,

“uma vez que o cristianismo milita contra a destruição e prega um evangelho de salvação, o conservadorismo encontra nele um parceiro, já que, segundo a teologia cristã, haverá uma nova criação, que procede, porém, desta antiga criação; trata-se, mais especificamente, de uma restauração, um trabalho de aprimoramento redentivo”8.

   Deste modo, é correto afirmar que dentre as bases do conservadorismo apresentadas no início deste artigo, a teologia que envolve os princípios judaico-cristãos é fundamental para o desenvolvimento da filosofia conservadora, visto que esta apoia-se em princípios inerentes a uma cultura geral de raízes cristãs. Na sua obra “O que é Conservadorismo”, Roger Scruton cita a argumentação de Viscount Hailsham que diz “que não pode haver um conservadorismo genuíno que não esteja fundado sobre uma perspectiva religiosa da base da obrigação civil, e tampouco pode haver urna religião verdadeira na qual o fundamento da obrigação civil seja tratado como algo puramente secular"9. A afirmação de Hailsham coaduna com a teologia do apóstolo Paulo, que ao escrever sua carta aos Colossenses, admoesta aos cristãos à exercerem os seus papéis sociais “de coração”, quando diz: “e, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao SENHOR, e não aos homens...”10 . Dentro deste mesmo pensamento, Scruton é assertivo ao afirmar que:

“a visão de outro e mais vasto mundo de cujas leis brotam todas as obrigações vigentes dá uma sustentação incomparável a laços que nunca foram contraídos. Ao ver esses laços como a expressão da Providência, as pessoas estarão mais dispostas a aceitá-los. Elas aceitarão como uma ordem divina aquilo que rejeitariam como empenho pessoal”11.

   Logo, pensar em um conservadorismo sem os princípios cristãos é o mesmo que um corpo sem o fôlego de vida. Para Scruton, pode até existir a possibilidade de um conservadorismo sem o transcendente, mas que é inegável que o sentimento religioso fortalece a sociedade, e que já que ele existe, deve ser usado para isso. É plausível afirmar que tendo em sua gênese princípios cristãos, o conservador é alguém dotado de qualidades. Mas quais seriam as principais virtudes que caracterizam o conservador? 

   Bocchi elenca no mínimo sete, que são: “caráter, busca da verdade, sabedoria, moderação, paciência, civilização e fé”12. Destas sete virtudes, se faz necessário destacar algumas que possuem correspondência direta com a teologia cristã. O caráter é a principal das virtudes dentro da filosofia conservadora, pois cria a condição sine qua non para a pacífica convivência entre as pessoas, sem a qual a sociedade estaria condenada à falência. Ter caráter é estar alinhado ao segundo maior mandamento de Cristo, que diz que o homem deve “amar o próximo como a si mesmo”13. O amor neste caso, está relacionado a responsabilidade para com o outro dentro dos papéis sociais que cada um exerce. O caráter é por sua vez construído no ser humano dentro do seio familiar, que é o depositório e conservatório de todas as virtudes. Destaca-se também a busca da verdade, que é uma necessidade pra quem deseja viver uma realidade, pois o contrário disso, o que resta é uma vida de ilusão.

   É nesta perspectiva que vive o conservador, pois rejeita filosofias ilusórias e utópicas. Uma sociedade sem verdade está fadada ao fracasso e à extinção. No Evangelho Segundo João, Cristo se identifica como a própria verdade, e afirma que aquele que chega ao conhecimento dela, alcança liberdade. A Sabedoria também merece destaque nesta lista. O rei Salomão declara que o homem deve ter a sabedoria como algo essencial na sua vida. Adquirida pela observação, pela experiência, e por dádiva divina, a sabedoria aponta sempre para o melhor caminho, e ela só poder ser encontrada em sua plenitude na pessoa do Eterno. A sabedoria instrumentaliza o conhecimento, usando-o para o desenvolvimento humano e da sociedade. Na civilidade, destaca-se a afirmação de Cristo acerca das relações entre as pessoas: “tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós”14. Este mandamento certamente garante harmonia e o bom convívio entre as pessoas. 

   O apóstolo Paulo, afirma que a experiência de fé cristã tem no amor ao próximo a sua única via de operação. O maior exemplo da necessidade de civilidade é a relação que se deve ter com os vizinhos. Sobre isso, o rei Salomão afirma que o ato de desprezar o vizinho é pecaminoso, e que é melhor ter um vizinho perto que possa te ajudar em um momento de dificuldade do que um irmão que mora longe e não poderá te socorrer. Ainda no campo da civilidade, a confissão e o perdão tornam possível a convivência com o outro. São atitudes que tratam o orgulho e o ressentimento, tornando possível a restauração da convivência humana. 

   A última virtude a ser destacada a fé, que é conceituada pelo escritor da Epístola aos Hebreus como “o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem”15, capacita o homem a avançar em meio às impossibilidades, tirando-o do lugar da mediocridade, promovendo-o ao desenvolvimento contínuo por meio da crença no sobrenatural divino. Embora a fé seja a capacidade de se ver o invisível e da certeza de um acontecimento futuro, ela não é construída no vazio, mas em algo real, que é a Revelação da Palavra de Deus, registrada nas páginas da Bíblia Sagrada, que traz também registros das experiências de homens que ousaram em crer e foram transformados e impactaram não apenas a sua geração, mas também as vindouras, levando-as para um nível de experiência com as realidades eternas de Deus. 

   A fé é o único meio de o homem alcançar as realidades eternas, e até mesmo materializá-las em favor do seu bem estar. Estas realidades se traduzem no mais alto grau que o homem pode alcançar na sua experiência de vida como ser consciente, pois são expressões da vontade divina para a humanidade. Sendo assim, ao se apontar a fé como uma das virtudes do conservadorismo, afasta-se por completo do rótulo posto pelos progressistas ao conservadorismo da não mudança, de um sistema retrógado que se recusa a qualquer evolução, pois diferentemente do progressismo, o conservadorismo se recusa a construir ou evoluir em cima do nada, de teorias vazias, que são ao mesmo tempo empolgantes, prometendo a todos um futuro ilusório, porém, usa as suas experiências de sucesso e fracasso do passado como bases para a construção de um futuro melhor. O que o conservador busca na verdade é o viver em excelência, e quando o que se pretende fazer não se traduz em melhorias concretas, mas é na verdade um emaranhado de filosofias utópicas, os freios da prudência são acionados. 

   A ideia enganosa de que o novo é melhor arrebata os corações da nova geração, e cabe ao conservador não permitir mudanças bruscas, mas lentas, tendo o passado sempre como seu principal arcabouço; no entanto, quando se tem a consciência de que a realidade vivida está longe de ser a melhor experiência, o conservador não se nega a buscar a mudança, e usará a fé como mola propulsora. Essa ideia era defendida por Edmund Burke quando falava da necessidade da reforma para a conservação da sociedade ao longo dos tempos. Sobre a fé sobrenatural, Scruton diz que “já se comprovou, de diferentes maneiras em diferentes épocas, que nós, seres racionais, precisamos de costumes e instituições que sejam fundados em algo além da razão se quisermos usar nossa própria razão com eficácia”16. Sendo assim, a busca da eficácia é o alvo das ações do conservador, e não a procura frenética por algo novo, através de um sentimento revolucionário que usa a mudança como combustível.

OS CONSERVADORISMOS CLÁSSICO E O LIBERAL

   O pensamento conservador está presente em todo o mundo, mas se manifesta de formas diferentes em cada sociedade, nas palavras de Roger Scruton, “não existe um conservadorismo universal que se possa aplicar a qualquer sociedade sem as devidas adaptações e a observância dos aspectos substantivos em questão”17. Mesmo assim, não se pode conceber uma política conservadora sem os princípios do pensamento conservador. O conservadorismo inglês, fundado em 1620, defende a moralidade, rejeitam o universalismo, e o coletivismo, e diferentemente do anglo-saxão, rejeitam o liberalismo. O conservadorismo anglo-saxão é originário dos Estados Unidos, e tem como principais características a liberdade individual, defesa da propriedade, defesa da vida, liberdade comercial, livre empreendedorismo e defesa das liberdades. Sendo que, esta última possui raízes no senso moral judaico-cristão. O conservadorismo-liberal descende do conservadorismo anglo-saxão, e é o modelo de conservadorismo presente no Brasil. 

   As liberdades individuais e econômicas são marcas do conservadorismo-liberal, que possui como principais características: “império da lei, estabilidade, previsibilidade, segurança jurídica, respeito aos pactos, meritocracia e moralidade”18. Mesmo estando presente na maioria das propriedades acima elencadas, o pensamento cristão é nítido no princípio da moralidade, que conduz o homem às práticas que condizem com as Escrituras Sagradas, e permite que as virtudes não sejam apenas metafísicas, mas visíveis dentro da sociedade através dos relacionamentos pessoais.

INFLUÊNCIAS DO CONSERVADORISMO NA SOCIEDADE BRASILEIRA

   Como dito acima, o conservadorismo liberal foi o modelo implantado no Brasil, que a priori herdou os princípios conservadores de Portugal, quando da sua colonização. No período monárquico, o movimento conservador brasileiro não se alinhava ao modelo britânico nem ao americano, mas influenciado por uma cultura liberal, que ao mesmo era permissiva com a escravidão, tem o antagonismo presente desde a sua gênese. Dentro desta dialética de pensamento, a Igreja Católica Romana, atuava como ordem mediadora de conflitos, buscando equilíbrios para a estabilidade da paz e do governo monárquico, pregando a conservação dos valores cristãos e refutando todo e qualquer vento de mudança não apenas no campo religioso, mas no social e político.

  Com o surgimento de ideias políticas trazidas pelos progressistas, tais como o anarquismo e o comunismo, que ocorreram principalmente após a assinatura do Tratado de Comércio e Navegação com a Inglaterra (1810), a igreja entrou ativamente no campo político. Sendo assim, o liberalismo econômico era implantado dentro de princípios que buscavam o aumento da riqueza através do comércio exterior, enquanto as questões políticas, sociais e religiosas eram adaptadas de acordo com a demanda econômica, sempre pautadas a partir da elite dominadora para o povo. Com abertura dos portos, começaram a ser difundidas no Brasil ideias liberais, no campo político, e protestantes, no campo religioso. Na Constituição de 1824, o catolicismo é estabelecido como religião oficial do Brasil Império, e usa sua posição para interferir nas instituições implantando uma espécie de “conservadorismo católico”, alinhado aos interesses da monarquia. “Ao lado da natural apologia do catolicismo, o núcleo do pensamento destes atores está no repúdio ao materialismo, ao relativismo e à secularização, bem como na negação da psique moderna”19

   Na instauração da República, houve uma participação ativa da Igreja Católica Romana na garantia do direito à liberdade religiosa na Constituição de 1889. Mesmo não estando mais como a religião oficial do Brasil, os católicos continuavam a desempenhar um papel importante em vários setores da sociedade. Enquanto isso, os protestantes buscavam estabelecer limites entre a Igreja Católica e o Estado. Devido a existência de diversas segmentações, fato que não tornava visível a ação dos mesmos como um movimento unificado, os protestantes se mantiveram distantes das ações na política no início do Sec. XX. Esta realidade permaneceu quase que inalterada até os anos 60.

INFLUÊNCIAS DO CONSERVADORISMO NA POLÍTICA BRASILEIRA

 Nos anos 60, houve o acirramento da guerra fria entre o bloco da chamada direita, composta por conservadores e conservadores-liberais, tendo nos Estados Unidos e na Inglaterra, seus principais representantes; e o bloco da chamada esquerda, que era integrado pelos progressistas, na sua maioria comunistas e socialistas. No Brasil com o crescimento dos progressistas a partir da organização de sindicatos, motivados pela situação precária da classe operária, e de uma pequena ala progressista da Igreja Católica, que pregava a Teologia da Libertação, houve a tentativa de se estabelecer no país o progressismo como filosofia dominante, através de um governo comunista. Estes intentavam eliminar os valores estabelecidos pelo conservadorismo, tais como: a liberdade religiosa, a família conforme os padrões bíblicos, o direito à propriedade e a moralidade.

    A resposta a isto foi a deposição do governo estabelecido que transigia com os pensamentos comunistas, e o estabelecimento de um regime militar autoritário, que teve o apoio de parte dos protestantes e da Igreja Católica, através de fortes discursos anticomunistas e antiprogressistas e de grandes manifestações, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A partir daí, ficou claro a importância da religião cristã, que tinha se estabelecido na sociedade como uma norteadora não apenas das questões sociais, mas políticas e econômicas. Após a redemocratização, ocorrida na década de 1980, com o fim do regime militar, os progressistas ganharam espaço na política brasileira, em meio a uma sociedade que clamava por liberdade. O movimento progressista, diferentemente do conservador, tem em sua gênese o ativismo político revolucionário, que arrebatou os corações dos jovens, principalmente nas universidades públicas, incutindo em seus inexperientes corações, ávidos por mudanças, a filosofia do progressismo. 

   As pautas progressistas ganharam espaço nos governos de Fenando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula e Dilma Roussef, mas não apenas no executivo, mas também no legislativo e no judiciário. Entre os conservadores, a partir de 1970, houve um expressivo crescimento do evangélicos, sendo que o movimento pentecostal foi o que mais se destacou. Este fato desencadeou a organização política nacional dos evangélicos e a criação da Bancada Evangélica no Congresso Nacional. Porém, com o domínio na política nacional dos progressistas, e sua crescente pauta sendo implantada na sociedade, os conservadores reagiram e mudaram a forma de atuar, levando pautas políticas para dentro das igrejas, transformando-se em “conservadores ativistas”. O discurso de que “não se mistura política com religião” foi deixado de lado, ao verem seus valores ameaçados, e esse despertamento político, nunca visto antes, já que a atuação dos conservadores católicos na esfera política sempre se mostrara velada, com raras exceções, trouxe surpresas a muitos.

   Ao ser denominada pela mídia como “onda conservadora”, o enfrentamento na defesa dos valores do conservadorismo por grande parte da população, gerando uma mudança drástica no campo político, materializada nas eleições de 2018, mostra o desconhecimento de grande parte dos ditos “intelectuais” sobre o que de fato é o conservadorismo. Ao ser questionado pelo entrevistador no Programa Aqui na Band, da BandNews, sobre a “onda conservadora, o jornalista Alexandre Garcia discorre:

“Eu diria que não há uma onda. O que sempre houve foi um mar conservador. Um mar pacífico, um mar sem ondas, porque estava temeroso, estava, digamos assim, encurralado pelos meios políticos, meios de informação. Houve um domínio nos últimos 30 anos dos chamados ‘progressistas’”20.

   Dito isto, pode-se concluir que enquanto “os ventos das ideias” progressistas não eram suficientes para agitar o “mar dos valores” conservadores, o “mar conservador” permaneceu em silêncio, e em alguns momentos até mesmo “sem ondas”. Com a materialização das pautas progressistas através de leis e políticas públicas, “os ventos” se tornaram fortes e agitaram o calmo “mar do conservadorismo”. Sobre este assunto Scruton diz que:

“Por não haver uma política Conservadora universal nem muito menos um esforço dos Conservadores em elaborar um corpo teórico e sistemático do que seja o Conservadorismo, surgiu a ilusão de que não há pensamento Conservador. E de que não exista sequer um conjunto sólido de conceitos, valores e princípios, e uma visão geral da sociedade, que orientem os Conservadores a agir politicamente. O Conservadorismo fundamentaria sua ação na mera reação; sua política, na procrastinação; sua crença, na nostalgia”21.

  Esta visão errônea descrita por Roger Scruton sintetiza o alvoroço provocado pela mídia após as eleições presidenciais de 2018, que deu a vitória a Jair Bolosonaro, um candidato “outsider, que defendia pautas amplamente conservadoras, apesar das diversas contradições em relação aos valores cristãos em algumas de suas atitudes.

   Com o acirramento das disputas dentro do campo da política entre cristãos conservadores e progressistas, levantou-se no seio da igreja evangélica uma parcela de adeptos que se posicionou contra o ativismo político da igreja, questionando sobre quais eram os limites da igreja na política. Certamente, esse já era um confronto esperado, pois, uma grande parcela de membros das instituições eclesiásticas cresceu dentro de um ambiente em que se pregava a separação entre igreja e política. Era justamente o período de quietude do “mar conservador”, provocado pela forte influência cristã na classe dominante. É neste pensamento que Roger Scruton afirma que:

 “a situação da crença religiosa ver-se-á refletida na situação da sociedade civil e buscará sua expressão na lei. Pensar que políticos possam atuar ignorando as atuais crenças religiosas daqueles a quem eles se propõem governar é enxergar a política como um mecanismo de administração indiferente. Tal visão é ou impraticável (ver caso do Irã) ou tirânica (ver caso da Rússia), e, em qualquer dos casos, dificilmente seria conservadora”22.

   Em resumo, pensar numa existência cristã sem que a mesma seja a principal influenciadora das instituições que formam a sociedade é desconhecer os princípios do evangelho de Cristo, que tem como proposta uma reforma total no pensamento e vivência da humanidade. É fato que deve haver um limite de influência na sociedade por parte do cristianismo, e este é o que mantém a liberdade de escolha do ser humano, já que os princípios do evangelho não podem ser impostos, mas absorvidos de boa vontade pelo homem. Para Moreira,

“Tudo isto nos leva de volta à igreja e seu papel enquanto instituição e enquanto conjunto de fiéis que se engajam na esfera pública. A igreja não é apolítica, mas deveria ser apartidária. No campo da política, deve fornecer aos cristãos instrumentos críticos para uma cidadania sólida, transmitindo o valor real da política que gera a promoção do bem comum e não de indivíduos ou grupos específicos”23.

   Cabe à igreja instituição manter-se fiel aos princípios bíblicos, capacitando a igreja organismo para manifestar o seu cristianismo dentro de todas as esferas da sociedade de forma natural. Essa seria a atitude mais adequada e alinhada ao conservadorismo que refuta ativismos e radicalismos, e alimenta uma mudança lenta e contínua.

   O conservadorismo liberal no Brasil é uma realidade incontestável, mas junto a isso existe o perigo da tentação econômica liberal, que, se não guiada pelo conservadorismo, implicará em afetá-lo drasticamente. O verdadeiro conservadorismo liberal, é liberal apenas na economia, mantendo os seus valores sociais e religiosos intactos. A não observância disso, poderá transformar o princípio conservador em um escravo da economia liberal, convertendo o movimento em um liberalismo conservador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

   É correto afirmar a existência de um tipo de conservadorismo no Brasil, com suas peculiaridades decorrentes da história que envolveu a sua implantação. Houve um domínio do conservadorismo no primeiro século da história do Brasil, mas hoje a realidade é que embora o pensamento conservador seja o da maioria da população, a sua voz não tem mais a mesma força da época do Brasil Império, nem dos primeiros anos da República. O país hoje se encontra em um período de acirramento de forças, e mais uma vez cabe a igreja ser luz e indicar o caminho para a nação, sendo que este caminho não pode ser partidário, mas certamente será religioso, social e político, emanando no seio da população que os valores cristãos presentes no movimento conservador trazem segurança às gerações futuras. Não há futuro garantido quando se propõe a destruir o passado e lançar bases novas para a sociedade, mas precisa-se olhar para o passado, e aprender com os erros e acertos da humanidade, construindo sobre a experiência humanidade. Não há futuro em uma sociedade que prega a ausência de valores cristãos como família, moralidade, sabedoria, verdade, liberdade, caráter e prudência, dentre outros.

 

NOTAS

2.     BOCCHI, Olsen Henrique. Conservadorismo Liberal. São Paulo: Editora Dialética. Edição do Kindle, 2021, p. 54.

3.     RIBEIRO, Érick Luiz Wutke. Historiografia Conservadora no Brasil: O Homem e a Montanha (1944) de João Camillo de Oliveira Torres. Monografia (Bacharelado em História) - Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2016, p. 12, Disponível em: http://clyde.dr.ufu.br/bitstream/123456789/20118/1/HistoriografiaConservadoraBrasil.pdf. Acesso em: 04/10/21.

4.      BOCCHI, Olsen Henrique. Conservadorismo Liberal. São Paulo: Editora Dialética. Edição do Kindle, 2021, p. 55.

5.      BOCCHI, Olsen Henrique. Conservadorismo Liberal. São Paulo: Editora Dialética. Edição do Kindle, 2021, p. 68-69.

6.      BOCCHI, Olsen Henrique. Conservadorismo Liberal. São Paulo: Editora Dialética. Edição do Kindle, 2021, p. 69.

7.    SCRUTON, Roger. Como Ser um Conservador; tradução Bruno Garschagen; Márcia Xavier de Brito. 1. ed. Rio de Janeiro: Record, Edição do Kindle. 2015, p. 62.

8.      MOREIRA, Thiago. Abraham Kuyper e as bases para uma teologia pública: A soberania divina e o desenvolvimento humano nas esferas da existência. 1. ed. Brasília: Editora Monergismo. Edição do Kindle. 2020, p. 199.

9.    HAILSHAM, Viscount. The Conservative Case. London: Penguin Books. 1959, p. 19. Citado por: SCRUTON, Roger. O que é Conservadorismo. Tradução Guilherme Ferreira Araújo. 1. ed.- São Paulo: Realizações. 2015, p. 267.

10.   BÍBLIA. Português. Colossenses 3:23. In: The Word: Almeida Corrigida Fiel. 2011. Aplicativo. Disponível em https://www.bibliaonline.com.br/acf/tg/4. Acesso em: 14 out. 2021.

11.    SCRUTON, Roger. O que é Conservadorismo. Tradução Guilherme Ferreira Araújo. 1. ed.- São Paulo: Realizações. 2015, p. 269.

12.    BOCCHI, Olsen Henrique. Conservadorismo Liberal. São Paulo: Editora Dialética. Edição do Kindle, 2021, p. 54.

13. BÍBLIA. Português. Marcos 12:33. In: The Word: Almeida Corrigida Fiel. 2011. Aplicativo. Disponível em https://www.bibliaonline.com.br/acf/tg/4. Acesso em: 14 out. 2021.

14. BÍBLIA. Português. Mateus 7:12. In: The Word: Almeida Corrigida Fiel. 2011. Aplicativo. Disponível em https://www.bibliaonline.com.br/acf/tg/4. Acesso em: 14 out. 2021.

15. BÍBLIA. Português. Hebreus 11:1. In: The Word: Almeida Corrigida Fiel. 2011. Aplicativo. Disponível em https://www.bibliaonline.com.br/acf/tg/4. Acesso em: 14 out. 2021.

16.   SCRUTON, Roger. Conservadorismo: Um convite à grande tradição. Tradução de Alessandra Bonrruquer. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Record. Edição do Kindle,2019, p. 123.

17.  SCRUTON, Roger. O que é Conservadorismo. Tradução Guilherme Ferreira Araújo. 1. ed.- São Paulo: Realizações. 2015, p. 8.

18.   BOCCHI, Olsen Henrique. Conservadorismo Liberal. São Paulo: Editora Dialética. Edição do Kindle, 2021, p. 79.

19.  QUADROS, Marcos Paulo dos Reis. O conservadorismo católico na política brasileira: considerações sobre as atividades da TFP ontem e hoje. Estudos de sociologia. Araraquara v.18 n.34 p.193-208 jan.-jun. 2013, p. 195-196. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/estudos/article/view/5219/4663. Acesso em: 04/10/21.

20.  GARCIA, Alexandre. Você sabe o que é conservadorismo? - Debate Completo | AQUI NA BAND. 23/06/2020 Disponível em: <https://youtu.be/m9F8I-DMrdI> 24’28’’ 28’30’’ Acessado em: 22/07/2021.

21.   SCRUTON, Roger. O que é Conservadorismo. Tradução Guilherme Ferreira Araújo. 1. ed.- São Paulo: Realizações. 2015, p. 8.

22.   SCRUTON, Roger. O que é Conservadorismo. Tradução Guilherme Ferreira Araújo. 1. ed.- São Paulo: Realizações. 2015, p. 268

23.   Moreira, Thiago. Abraham Kuyper e as bases para uma teologia pública: A soberania divina e o desenvolvimento humano nas esferas da existência (p. 27). Editora Monergismo. Edição do Kindle.


REFERÊNCIAS

 ALBUQUERQUE, José Arnaldo Frota de. Igreja Conservadora No Brasil (1964-1974):Catecismo Anticomunista. Monografia (Bacharelado em História) - Universidade de Brasília, Brasília. 2021. Disponível em: https://bdm.unb.br/bitstream/10483/28557/1/2021_JoseArnaldoFrotaDeAlbuquerque_tcc.pdf. Acesso em: 04/10/21.

BÍBLIA. Português. In: The Word: Almeida Corrigida Fiel. 2011. Aplicativo. Disponível em https://www.bibliaonline.com.br/acf/tg/4. Acesso em: 14 out. 2021.

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